18.2.07

Cronica do Verissimo de 1995

Eta nóis (16/2/95)

O mito da peculiaridade brasileira, de que não somos parecidos com nenhum outro povo da terra, custa a acabar. Todos os povos, claro, se consideram diferentes de todos os outros, mas no nosso caso não é só um exagero de auto-estima, é uma precondição de existência. Precisamos do mito para nos governarmos e nos aturarmos. Nossa convivência como sociedade depende da vigência do mito. Não como folclore, consolo pelos nossos vícios (“brasileiro é assim mesmo”) e celebração das nossas espertezas e talentos, mas como crença firme, oficial, de que a Providência, por alguma razão, nos liberou das leis de causa e efeito que regem o resto do mundo. Talvez pela nossa simpatia.

Desde o começo do Plano Real, passando pela eleição do Éfe Agá e chegando até a última manifestação do presidente, vivemos uma fase de especial vigor do mito da peculiaridade brasileira. Derrotamos a inflação sem ofender as leis do mercado e sem recessão aparente, estamos contendo o consumo, mas com aumento de produção e sem desemprego, seguimos à risca toda a receita neoliberal, mas não se preocupe, isto não é neoliberalismo, o governo depende para governar socialdemocraticamente de uma estrutura parlamentar dominada pelo reacionarismo, mas não vai barganhar sua alma - mesmo porque ela já está prometida ao empresariado paulista - e cumprirá todas as suas promessas aos “excluídos”, com ou sem dinheiro. Como tudo isso é possível? Não é possível, é o Brasil. Vivemos sob o signo do Eta Nóis.
Nos desenhos animados, às vezes acaba o chão, mas os personagens continuam a caminhar no vazio. Só caem quando se dão conta de que estão pisando em nada. Mas, se não se dessem conta, atravessariam o abismo. Adote esta técnica para ajudar Éfe Agá a nos levar até o outro lado. Não faça perguntas, não estranhe nada - e acima de tudo NÃO OLHE PARA BAIXO!